domingo, 30 de dezembro de 2012

TERRA FENDIDA





            Terra negra! Terra virgem!

            Na paisagem agreste.


            Exposta ao sol inclemente,         

            às chuvas diluviais à neve,

            aos ventos gélidos do norte.

            Pancadas certeiras cadenciadas

            fendem a Terra impiedosamente.

            Sulcos abertos respiram o sangue quente.

            Profundos os rasgos!



            E a Terra chora para dentro.

            Silenciosamente, solitariamente.

            Esventrada, tenta cobrir-se

            com o pálido luar da noite.

            O frio corrói as entranhas dilaceradas.

            Por instantes perde a consciência de si.

           
            Sobranceiro o pipilar de um pássaro furtivo.

                                                                         
                                                                  lia mar

NASCER DAS PEDRAS

                             

Esta dor de querer amar e não dever.
Uma natural entrega que tropeça
no caminho onde as flores                       
apenas nascem nos intervalos
das pedras que o consomem. 



E nós saltitamos  
colhendo as flores do coração.
Entre beijos e abraços

coroamo-nos mutuamente,
pondo em nós frescura e beleza.
Sentimos o calor do sol penetrar-nos. 
E o ar que respiramos                                                                   
cheira a rosas e a glicínias.

Alheios aos
ventos e às chuvas
construímos o nosso caminho
de seda verde
e os nossos passos seguem
a direcção do poente.

Olhamos o fogo reflectido
no espelho da água
seguindo a sua passagem
até ao último momento.
No amanhã, ele voltará.
Pensamos nós...
       
                       lia mar

sábado, 29 de dezembro de 2012

CONSCIÊNCIA DE SER


Pernas insignificantes, tronco quadrado, 
quase anão, rasteirinho junto ao chão.
E a minha cabeça crescia.. crescia...
Os olhos redondos, sempre abertos
perscrutavam por entre opacas multidões
um mundo real, liberto de muros e de medos.

Construí a minha bicicleta com 
todo o amor e engenho.
Não tenho pés. Tenho minúsculas rodas
que me rolam e me seguram à terra.
Minhas finas pernas, agora gigantes
elevam-me acima do mundo.
Meu olhar dilata-se para além de mim.

Assim caminho a vida na incessante 
busca do Universo, da consciência
real das coisas. Dói tanto, às vezes... 
Outras, inunda de luz infinita.                     
Vejo o feio e a dor mais lancinantes.
Vejo o belo e a felicidade mais intensos.

Daqui, da minha bicicleta pernalta
com o meu sorriso, o meu calor, os 
meus sonhos, a minha entrega,
estendo o meu abraço de alma solidária.

Agarro bem forte os sentires universais.
Encho o coração na dilatação suprema.

                                            lia mar
                              (A propósito de uma imagem)

domingo, 23 de dezembro de 2012

RELÓGIO DO CORAÇÃO


                    
                      Que coisa é o relógio?
                      Um regulador de vida?
                      Que rouba o tempo momento a momento
                      naquele compasso ritmado,
                      aprisionado em minúsculas gaiolas douradas;
                      ou em caixas enormes que compactam o ser?
                      Que diz quanto já passou e
                      mostra quanto há para a frente?
                      Não! Não me acenem com caixinhas do tempo
                      que me sufocam o ar que respiro.
                      Que anulam as memórias e as emoções.

                      Dentro de mim mora um relógio.
                      Um livro vivo sem tempo.
                      Muitas páginas escritas,
                      desenhadas, ilustradas...
                      Páginas densas, outras abrem-se
                      à leveza das manhãs ensolaradas.
                      Quantas coisas belas! Outras tristes…
                      Páginas emolduradas de afectos!
                     

                      Arrancaria algumas folhas…

                      No livro há muitos espaços abertos.
                      E florirão flores. E rios cristalinos
                      sorverão o verde dos bosques.
                      Pássaros esvoaçam leves e
                      segredam melodias.
                      Nele, poderei compor desacertos,
                      sofrimentos da interioridade.
                      É onde os momentos se condensam
                      em linha recta. Como que acontecidos
                      de uma só vez.
                      Está tudo lá, no livro.
                      Livro sem fim.
                      Livro em contínua laboração. 


                                                               lia mar
                                                       

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

VITRAL



          Um mundo aberto!
          Portas e cores apelativas.
          Qual a entrada que escolho?                                     
          Neste labirinto de não saber o
          que se esconde para além
          da visão imediata
          debruço-me sobre mim mesma
          em recolhimento de imperiosidade
          da escolha.

          Entro pela nesga azul forte

          na esperança de encontrar
          a transparência do momento
          primordial.

                                lia mar

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

IMAGEM


  Vem-me a imagem de mim a
  habitar a imensa tela amarela.
  Não de mim feita de carne em sangue.
  Uma imagem etérea.
  Assim, vivida no coração da praia
  beberia as tuas serenas lágrimas
  e verias o teu sorriso com brilho de oiro
  nesse pedaço de mundo que
  o mar suavemente embrulha.
                      
                                         lia mar

MIRAGEM


Tacteio, procuro no escuro
e é o vazio que agarro
daquele leito de luz.
Mas está, mas estava lá...
Nos beijos ternos de paixão
nas doces carícias, nos
abraços de entrega plena.

Eu vejo. Eu vi.
Não, não está lá!
Luta entre a razão
e o coração.
Sinto seu corpo quente
seu perfume volatizando-se.
O sorriso e a paz
espelhados no rosto.

Que deus te arrebatou
daquele lugar lindo onde
com fervor nos amámos?
De que Olimpo me olhas
meu amor?

                        lia mar

domingo, 16 de dezembro de 2012

UM LEGADO... UM GRITO!


Quantos gritos saíram já do peito dos portugueses?
Quantos gritos abafados ficaram nas lágrimas
que caíram no chão barrento de toda a sujeira política?
Corações sufocados no amanhecer do sonho enlutado.
Desespero, raiva, desilusão no túnel profundo da desconstrução.
Choramos, rimos, fazemos humor da nossa própria desventura.

Como somos grandes e corajosos, sofredores de alma cheia de vazio!
Tão crédulos nas promessas dos carrascos profissionais!
- Inocência cega que não quer enxergar o óbvio? -
E agora se quedam silenciosos numa extrema pobreza.
Famintos do essencial, com o estômago embrulhado
em altas marés de sal, de praias batidas pela tristeza.

Onde está a tua força, a tua determinação, Povo do meu sentir?
A tua alma de aventura, as tuas armas de guerreiro, deixaste
que tas roubassem e contra ti as arremessassem?
Meu Portugal de meninos que enganam a fome
em brincadeiras de recreio e estremecem sorrisos
nos olhos brilhantes, agarrando o pão da primeira refeição!

E a escumalha continua a lançar víboras e lavas de vulcões
vendavais de certezas que emudecem as gentes e as fazem em cinzas.
Quero ver este Povo de lusitanas raízes sair do torpor
em que caiu e gritar o seu pensamento, romper as correntes
que tolhem as suas vidas. Fazer a guerra da sua existência.
Somos Potugalidade! Somos Portugal! Somos pessoas inteiras!

                                                                                        lia mar

                                                      

OLHARES DE LUZ


 

         Fios do sangue
      Fios da terra
      Nós da vida
      Laços de afectos
      Entrelaçados
      Na riqueza dos sentires
                               Na cumplicidade das cores.

                                                               lia mar

É UM SORRISO!


É um sorriso que abre portas
Transpõe montanhas                         
Brilha na lágrima do orvalho.
Reflecte na linha da água 
do mar.
Entra dentro da alma.

Um sorriso que torna mais 

claras as coisas.
Dá leveza e aquece.

Sorri! Ri! 

Desperta a terra que pisas.
Deixa o vento levar-te.
Deixa surpreender-te.

                         lia mar

                   (A alguém muito querida)

NÃO QUERO NÃO


Não quero um amor
que se esconde do sol
dos pássaros
do verde dos parques
dos lagos ondulados.                               

Não quero um amor
que não escuta
os sons da natureza
numa clara e morna manhã.

Não quero não, um amor
que apenas vive no escuro.
Apenas ouve.
Não vê. Não toca.

Não quero um amor
que foge de amar.
Não, não quero amor assim.

                              lia mar

NO LAGO

       

     No lago de águas paradas   
     o nenúfar encontra a sua               
     razão de viver.
     
                               lia mar

DIMENSÃO DO NADA


A espontaneidade foi embatendo,
momento a momento, em
densas nuvens de silêncio.
Pedaços de vida perdidos no vazio...        
Expectativas encalhadas nos rochedos.
Longas esperas submersas
na infinitude do nada.

                            lia mar


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

AQUI


Aqui, neste cantinho do mundo
no reduto da casa avassalada pelas chuvas
ventanias e nostalgia do sol que não brilhou,        
olho o desconforto que me chega
da árvore cor de fogo.

A luz que do candeeiro se desprende
é como um pequeno asteróide.
Brilha e aquece e tem o gesto de uma presença.

                                                         lia mar


                                             

INTERIORIDADE

 
Na minha mão fechada te anichas.
Sinto a tua intensa leveza                       
a tua suave doçura.
Olho a tua forma graciosa                   
tão autêntica
entrosada na sublimidade do azul.
E o que sinto é ternura. 

Uma ternura imensa que não cabe 
na distância 
da lonjura do oceano.
Uma ternura que nasce da alma
que se agarra ao corpo

que se estende mais e mais
na busca do chegar.

Contigo caminho, passo a passo
as estradas amplas, infinitas                            

as veredas entulhadas
de tortuosos cardos.
Quero chegar!
Não sei como. Não sei quando.

 Na ausência do quase tudo
 o que sinto é esta ternura imensa.


                                                lia mar